O académico sul-africano Andre Thomashausen defendeu hoje que a África do Sul deveria intervir em Cabo Delgado no âmbito de uma missão militar de paz regional e de reconstrução integrada daquela província no norte de Moçambique.
“Neste momento, a África do Sul também está ansiosa em
limitar a entrada de grandes empresas mercenárias estrangeiras, canadianas,
americanas, britânicas e francesas, e é por isso que está muito seriamente a
considerar uma assistência militar oficial através das forças [de Defesa]
regulares”, disse em entrevista à Lusa o académico e jurista sul-africano.
“Moçambique já solicitou esse apoio à SADC e é por aí
que se poderá processar, e se houver um escalar da violência é muito provável
que o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) também se venha a
pronunciar e poderia haver uma operação semelhante à operação de manutenção de
Paz na República Democrática do Congo, onde já existe desde há alguns anos uma
presença sul-africana”, salientou.
Manutenção de paz
O académico defendeu que a África do Sul utilizará a
experiência adquirida em missões de paz em Darfur, Sudão do Sul e no DR Congo
para montar “uma intervenção menos musculada e mais virada para a manutenção da
paz”, mas integrada num projeto de reconstrução social daquela região no norte
de Moçambique.
“É claro que uma mobilização de um batalhão ou até
mesmo de dois batalhões para Cabo Delgado é muito oneroso”, sublinhou o
analista, afirmando que “terá de haver uma forma de se financiar essa
intervenção e aí coloca-se a questão: como é possível que um jazigo enorme de
gás natural, fala-se que seja o 10º maior do mundo, se está a processar sem a
participação da África do Sul, que não tem nem um por cento dessas concessões”,
referiu.
“Agora, os bancos da África do Sul estão a financiar o
projeto da Total porque não consegue financiar um projeto de energia fóssil a
partir da Europa”, afirmou Thomashausen, acrescentando que Pretória “deveria e
poderia” participar no grande projeto de
exploração de gás.
“Seria natural que a África do Sul mantenha também um
interesse na proteção desses recursos”, sublinhou em entrevista à Lusa.
O Estado Islâmico (IS, na sigla em inglês) advertiu
retaliar recentemente Pretória, através de um boletim informativo em árabe,
citado pela imprensa sul-africana, caso se envolva militarmente no conflito em
Cabo Delgado.
Todavia, na sequência de um pedido do Presidente de
Moçambique, Filipe Nyusi, a ministra da Defesa da África do Sul Nosiviwe
Mapisa-Nqakula remeteu a questão para a SADC no parlamento.
Resposta da SADC
“A resposta coordenada da SADC à insurgência em
Moçambique é uma questão que envolve o estado membro e o organismo regional. Os
detalhes dessa resposta podem ser melhor articulados pelo Presidente ou pelo
Secretariado da SADC”, disse a governante em resposta por escrito a uma
pergunta da Aliança Democrática (DA, na sigla em inglês), o principal partido
na oposição.
“A África do Sul não deveria interferir nos assuntos
internos de um país vizinho se os nossos próprios interesses não estiverem em
risco. Em minha opinião, deveria ser uma intervenção da SADC para estabilizar
Cabo Delgado”, disse o deputado do Aliança Democrática, Kobus Marais.
O maior partido da oposição na África do Sul sublinhou
que o país participa atualmente numa missão antipirataria da SADC no Canal de
Moçambique, missão essa que “estabelece um precedente para a intervenção de uma
força da SADC, semelhante à RD Congo, onde a África do Sul é um dos três países
que contribuem para a Brigada de Intervenção de Força (FIB).”
Na ótica de Andre Thomashausen, a “militarização” de
Cabo Delgado “é sinistro porque as populações civis dentro de pouco tempo
ficarão numa situação semelhante à Síria ou à Somália em que já não existem
estruturas de pé e só existem refugiados e gente a sobreviver”.
“O ministério da Defesa sul-africano dispõe de verbas
para missões de paz e de assistência ao SADC, eventualmente terá de haver um
ajustamento nesse orçamento, mas também poderá haver uma situação em que
Moçambique assume as despesas diretas dessa missão, tal como a Total está a
pagar às FADM pela segurança em Cabo Delgado”, referiu.
“E poderá haver países doadores, os Estados Unidos por
exemplo a contribuir com material, aviões e helicópteros.
Andre Thomashausen considerou que a reconstrução de
Cabo Delgado “é urgente, porque é só através da reconstrução das suas
infraestruturas é que se vai poder pacificar esta situação [de conflito].
“A África do Sul tem capacidade para fazer essas obras
e sabe fazê-las muito bem, há muitas críticas contra este país, mas a África do
Sul tem uma capacidade de engenharia e construção civil impressionante”, sublinhou
à Lusa.


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