Uma carta aberta de várias associações e de coletivos de afrodescendentes e ciganos exigiu hoje aos responsáveis políticos que combatam o racismo e o crescimento da extrema-direita em Portugal, e que demonstrem solidariedade às vítimas de ataques raciais
A iniciativa, com o nome “O silêncio é cúmplice”, pede
que os responsáveis políticos e instituições “acionem os mecanismos processuais
para combater o racismo e o crescimento da extrema-direita”, e que deem “um
sinal inequívoco e público sobre a incitabilidade de atos e organizações
políticas e partidárias racistas”.
A carta, enviada à Lusa pelo Movimento Negro Portugal,
pede ainda que estes “demonstrem a sua solidariedade para com as vítimas destes
ataques”.
“A negação e inação sistemáticas é o leito da impunidade
do racismo que tem escalado para níveis a que já nos tínhamos desabituado. As
nossas vidas importam. O silêncio das instituições é cúmplice”, realça o
documento enviado ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e ao
primeiro-ministro, António Costa, entre outras responsáveis políticos.
A iniciativa, que junta 34 grupos antirracistas
de vários pontos do país, como a SOS Racismo, Movimento Negro, Afrolis, Djass,
Consciência Negra, Femafro ou Aurora Negra, destaca que, “no curto espaço de quatro
semanas, a sociedade portuguesa foi palco de manifestações racistas”,
defendendo que está escalada exige “uma resposta célere e um posicionamento
explícito das entidades competentes num Estado de direito democrático”.
A missiva refere ainda que no sábado, em frente à sede
da associação SOS Racismo, em Lisboa, houve “uma parada de um grupo neonazi, de
rosto tapado e tochas”, e que perante a “escalada dos ataques” não houve
“qualquer demonstração institucional pública de repúdio”.
O documento lembra também que após o “assassinato
brutal” do ator Bruno Candé “às mãos de um ex-combatente da guerra colonial”
não houve “uma declaração institucional de pesar e comprometida com o
antirracismo”.
“As condolências e suporte institucionais nunca
chegaram à família. Ao invés disso, da parte do Estado, tivemos a pronta
declaração pública do comissário do Comando Metropolitano de Lisboa (Cometlis)
da PSP, minimizando as motivações racistas neste assassinato”, frisa ainda.
O ator português Bruno Candé foi assassinado a tiro em
25 de julh, em plena rua de Moscavide, Loures.
Esta iniciativa critica ainda o facto de os líderes do
PSD e do PCP terem negado a existência de racismo em Portugal.
“Vieram agora outras figuras desses partidos
timidamente tentar dar sinal contrário, mas sem emendar o erro. O líder do PSD
chega ao ponto de mostrar-se disponível para um entendimento com o Chega se
este for mais moderado, mostrando o quão indiferente lhe é, política e
eticamente, o trajeto de incitamento ao ódio racial e desprezo pela democracia
que o Chega tem realizado”, destaca a carta.
O texto realça igualmente que as “duas
contramanifestações” do partido Chega “por baixo da capa ‘Portugal não é
racista’” incitam “ao anti antirracismo”.
“Chega-se ao ponto de devassar a vida privada de uma
criança negra, de difundir informação caluniosa sobre Bruno Candé, poucos dias
depois da sua morte. Num jantar em Leiria, André Ventura [líder do Chega], o
mesmo que propôs o confinamento da comunidade cigana e que desde a sua
candidatura a Loures tem incitado ao ódio e perseguido essa comunidade, volta a
insultar uma das deputadas negras: ‘Elas que vão para os países delas, porque é
lá que fazem falta’”, aponta.
“Perante este abalroar constante da nossa
Constituição, a ação das entidades competentes tem sido nula”, alerta a carta.
Fonte: Plataforma


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