O Supremo Tribunal de Justiça da Colômbia ordenou, a 4 de
agosto, a prisão preventiva domiciliária para o senador e antigo Presidente
Álvaro Uribe, suspeito de suborno de testemunhas e de fraude
processual num caso que remonta a 2012, crimes passíveis de 12 anos
de prisão.
Caiu como uma bomba o anúncio pelo Supremo Tribunal
colombiano de ordenar esta terça-feira a prisão preventiva domiciliária do
antigo chefe de Estado colombiano Álvaro Uribe, acusado de crimes de
suborno e manipulação de testemunhas, bem como de fraude processual, num
caso que o envolve a criação de um grupo paramilitar. Este é um dos muitos
vários casos judiciais de que é suspeito este político, que governou a Colômbia
entre 2002 e 2010 e que é o mentor do atual Presidente do país, Ivan Duque.
A justiça está a investigar um caso que data de 2012,
no qual várias testemunhas teriam recebido indemnizações, em troca da prestação
de depoimentos, que teriam favorecido o atual senador.
Entre estes testemunhos, está o do antigo
paramilitar Guillermo Monsalve, que na primeira fase do julgamento, tinha
indicado apontado Álvaro Uribe como um dos envolvidos na criação de um
grupo paramilitar na região de Antioquia, responsável por muitos assassinatos.
Decisão sem precedentes na Colômbia, onde Álvaro
Uribe, fundador do atual partido no poder, o Centro Democrático, e referência
política do atual Presidente Ivan Duque, detém atualmente um lugar no
Congresso, depois de se ter tornado, em 2018, no senador mais votado na
história do país.
O caso data de 2012, quando Uribe apresentou uma
queixa contra o senador de esquerda Iván Cepeda no Supremo Tribunal por alegada
conspiração, usando falsas testemunhas nas prisões colombianas, de modo a
envolvê-lo nas atividades dos grupos paramilitares.
O Supremo Tribunal absteve-se de processar Cepeda e, em
vez disso, pediu uma investigação a Uribe por suspeita de ter manipulado
testemunhas contra o congressista do Polo Democrático.
O próprio Uribe confirmou a sua prisão domiciliária
através da rede social Twitter, onde escreveu ”a privação da minha
liberdade causa-me profunda tristeza pela minha mulher, pela minha família e
pelos colombianos, que ainda acreditam que fiz algo de bom pelo país“.
“O Senador Uribe ficará privado de liberdade na sua
residência e a partir daí poderá continuar a exercer a sua defesa com todas as
garantias de direito a um processo justo“, declarou o tribunal poucas horas
depois, justificando a decisão aprovada por unanimidade por “possíveis riscos
de obstrução à justiça“.
A investigação focaliza-se, nesta fase, em determinar
se pessoas ligadas a Álvaro Uribe, tais como os seus advogados, e com o seu
consentimento, pagaram dinheiro e ofereceram benefícios judiciais aos
ex-paramilitares para os levar a alterar as suas declarações.
Na queixa original do paramilitar Guillermo
Monsalve, ele afirma que foi criado o grupo de auto-defesa ‘Os 12
Apóstolos’ numa propriedade então pertençam da família Uribe, grupo
que entre ameaças à população, conluio com as forças de segurança,
detenções e uma estreita relação com Santiago Uribe, irmão do ex-Presidente,
operou, de acordo com um grupo de testemunhas, numa propriedade familiar.
A decisão do Supremo Tribunal tinha sido precedida, na
véspera, por uma forte controvérsia envolvendo declarações de funcionários do
alto governo, do Centro Democrático, dos órgãos judiciais e do próprio
Presidente Ivan Duque, que pôs em causa a decisão da justiça.
“Serei sempre um crente na inocência de Álvaro Uribe“,
declarou o chefe de Estado e na terça-feira à tarde, reiterou numa
declaração na sede do governo, a sua defesa da “inocência e da honra de alguém
que, com o seu exemplo, ganhou um lugar na história da Colômbia“.
Setores da oposição consideraram este tipo de
pronunciamentos presidenciais como uma pressão sobre a justiça.
O senador Cepeda, filho de um senador comunista
assassinado, tinha pedido ao Centro Democrático “para cessar as suas tentativas
de intimidar e pressionar os juízes do tribunal“, e a Ivan Duque para se
comportar como um chefe de Estado “e não como um defensor público do seu mentor
político“.
Álvaro Uribe é provavelmente o político que mais
divide a sociedade colombiana.
Durante os seus dois mandatos, promoveu uma política
de segurança que foi aplaudida pelos setores mais conservadores e que foi
terreno fértil para centenas de execuções extrajudiciais de civis,
posteriormente apresentadas pelos militares como guerrilheiros mortos em
combate, isto em troca de benefícios.
De acordo com um relatório da Procuradoria-Geral
publicado no ano passado, houve pelo menos 2.248 execuções extrajudiciais entre
1998 e 2014, sendo que 97% dos casos tinham ocorrido entre o primeiro e o
segundo mandato de Álvaro Uribe.
Fonte: sapo


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