O rápido crescimento do tráfico e consumo de heroína na África Oriental e Austral tem um impacto "perigoso" no desenvolvimento urbano em países como África do Sul e Moçambique, revela um estudo sul-africano do Instituto de Estudos de Segurança (ISS).
A pesquisa do programa sul-africano sobre crime
organizado, o Enact do ISS, indica que a economia em expansão da heroína nesta
região do continente africano "é possibilitada pela urbanização não
planeada e disfuncional, fraca governação, crime organizado e corrupção
generalizada entre a polícia e os políticos na África do Sul e Moçambique (além
do Quénia e da Tanzânia)".
"As Nações Unidas estimam que 20 a 40 toneladas
de heroína entram anualmente no continente africano, mas a quantidade real pode
ser muito superior", estima o ISS.
"Há 10 anos, 90% da droga saiu do continente para
consumidores no mundo desenvolvido, mas uma quantidade significativa agora é comercializada
e consumida localmente, criando um vasto mercado ilegal com um impacto
devastador", refere a instituição sul-africana, em comunicado hoje
divulgado.
O estudo "Do Maskani ao Edil: A economia política
dos mercados de heroína na África Oriental e Austral", da autoria da
investigadora Simone Haysom, baseia-se num trabalho de campo realizado no
Quénia, Tanzânia, Uganda, Zâmbia, Moçambique e África do Sul.
A investigadora refere que há cinco cidades portuárias
que são "centrais" para a economia regional da heroína, nomeadamente
Stonetown, na ilha de Zanzibar, Dar es Salaam, na Tanzânia, Mombaça, no Quénia,
e Durban e Cidade do Cabo, na África do Sul.
Em Moçambique, o estudo refere que Mocímboa da Praia,
Pemba, Nacala e Angoche, norte do país, são pontos suspeitos da entrada da
droga proveniente do Paquistão, e identifica o aeroporto internacional de
Maputo como "centro de tráfico de heroína".
A Cidade do Cabo, sul da África do Sul, tem relações
comerciais através da logística de contentores marítimos com a Europa e
juntamente com Durban, litoral do país, adianta a mesma fonte, estas cidades
têm assistido ao desenvolvimento dos "maiores e mais lucrativos mercados
de retalho e de redes criminosas que fazem da violência uma característica do
comércio da heroína".
Segundo o estudo, a capital sul-africana Joanesburgo e
Nairobi, no Quénia, são os locais onde os "grandes ‘players’" se
reúnem para negociar acordos ilícitos.
"São as ‘capitais paralelas’ da economia da
heroína devido ao seu envolvimento com o comércio ilícito e legal, às fortes
ligações com a autoridade política central e à capacidade de conectar as
economias regionais e globais", sublinha Simone Haysom.
A investigadora prevê um crescimento ainda maior no
comércio de heroína, juntamente com o surgimento de megacidades africanas e a
expansão de centros urbanos de menor dimensão.
"Os mercados de droga estão a evoluir com esses
espaços urbanos gigantes, e a heroína está a acelerar a corrupção na polícia, a
aumentar a violência das ‘gangs’, afetando os serviços governamentais e
devastando comunidades numa crise de saúde pública”, salienta.
"Este é um grande desafio de desenvolvimento numa
região que passa por enormes mudanças sociais e económicas", sublinha a
investigadora.
Dados do ISS indicam que a população urbana em África
é a que mais cresce no planeta e que a urbanização nos países da África
Oriental e Austral deverá aumentar 74,3% e 43,6%, respetivamente, em 2050.
O programa Enact, sigla inglesa para "Melhorar a
Resposta de África ao Crime Organizado Transnacional", financiado pela
União Europeia, é implementado pelo ISS sul-africano, em articulação com a
Interpol e a Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional.
Fonte: Sapo


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