Vinte e seis organizações da sociedade civil criticaram hoje o "silêncio ensurdecedor" do Presidente da República e do Governo em relação a suspeitas de que 15 jovens candidatas a polícias terão sido engravidadas pelos seus instrutores.
Em comunicado divulgado hoje,
as 26 organizações questionam o facto de o Presidente da República, Filipe
Nyusi, o ministro do Interior, Amade Miquidade, e a ministra do Gênero, Criança
e Ação Social, Nyeleti Mondlane, não se terem pronunciado sobre o caso, passada
uma semana da denúncia do mesmo através das redes sociais.
"Onde estão as vozes das
pessoas que são o garante do Estado e que devem garantir a ordem, a democracia
e a justiça?" - Questionam os subscritores da nota de imprensa.
As 26 organizações classificam
como "crime" o que se passou na Escola Prática da Polícia de
Matalana, província de Maputo, e observam que o caso é apenas "a ponta do
icebergue".
"Como temos vindo a
denunciar, os direitos das mulheres não existem na prática e que, apesar de
haver leis que consagram a igualdade e o acesso a todas as esferas de trabalho
e de decisão, as mulheres continuam a ser tratadas como cidadãs, como seres que
devem uma intrínseca e inabalável submissão às vontades masculinas dos seus
maridos, dos seus chefes e dos seus pastores [religiosos]", lê-se no comunicado.
O caso envolvendo as 15
jovens, continua a nota, reafirma a "normalidade" do comportamento
abusivo de agentes policiais e de forças de defesa e segurança, bem como o
machismo.
As 26 organizações repudiam a
decisão do comandante-geral da Polícia da República de Moçambique (PRM),
Bernardino Rafael, de ordenar o regresso das 15 jovens às suas casas, para
depois regressarem ao curso de polícia, após o parto, considerando que essa
medida constituiu uma dupla punição.
"Ao serem recambiadas
para casa, acabam por ser duplamente punidas, primeiro, porque lhes é tirado o
direito de continuar o curso, e, segundo, porque uma vez de volta às suas zonas
de origem, sofrerão discriminação e estigma", lê-se no texto.
As 26 organizações exigem que
as instituições de justiça investiguem o caso e imputem responsabilidades
criminais e disciplinares aos autores do "crime".
Hoje, o presidente da Comissão
Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), Luís Bitone, defendeu a responsabilização
criminal e disciplinar dos instrutores que terão engravidado as 15 candidatas a
polícia na Escola Prática da Polícia de Matalana.
"Se for verdade o que tem
sido veiculado nas redes sociais e noutros fóruns, há dois caminhos: a
responsabilização criminal e a responsabilização civil", afirmou Luís Bitone,
em declarações à emissora Rádio Moçambique.
O caso veio a público há uma
semana, quando foi divulgada nas redes sociais uma ordem do Comandante-Geral da
Polícia da PRM, para a instauração de um processo disciplinar contra
instruendos da Escola Prática da Polícia de Matalana, província de Maputo, por
suspeitas de terem engravidado as 15 jovens durante a formação.
No documento, Bernardino
Rafael ordenava a suspensão dos instruendos e o regresso das jovens para as
suas casas, assegurando a sua reintegração no curso na Escola Prática da
Polícia de Matalane, após o parto.
O Comando-Geral da PRM ainda
não se pronunciou sobre o assunto.


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